Champions Ligay reúne homossexuais apaixonados por futebol

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“Em qual time você joga, hein?” Um amigo amolava outro, em tom de ironia, perguntando se ele preferia estar do outro lado da grade, no campo de futebol onde começava a partida entre os times carioca BeesCats Soccer Boys e paulista Futeboys F.C, em vez de comer uma picanha.

A confraternização de fim de ano dos parceiros de pelada do Rio Sports Club, na zona sul carioca, caíra exatamente no sábado (25) escaldante da primeira Champions Ligay, um torneio de oito times brasileiros formados por homossexuais apaixonados por futebol que não conseguiam praticar o esporte marcado pela homofobia.

Não que naquele espaço dividido por décadas de preconceito não houvesse críticas, como a do vendedor do bar ao lado, que dizia não ter “nada a ver com isso”, e as dos convidados do churrasco irritados com a “pinta”, a bandeira gay e o som das divas pop cujas vozes ofuscavam o pagode do churrasco.

Mas, do início daquela tarde até a noite, risos e piadinhas ficaram nos armários.

Nos dois gramados ladeados por arquibancadas cheias de cores, mascotes e gritaria, cerca de 90 garotos se permitiram esquecer chacotas e a postura machista que tiveram de assumir para ir a um estádio. Abraços, danças sensuais e beijos na boca substituíram o medo.

Medo que o catarinense Jonatan Michel Krieser, 22, enfrentou na carreira relâmpago que teve em pequenos clubes. Com passagem pela equipe do futebol de campo do Comercial, de Ribeirão Preto (SP), na qual passou três meses em 2014, e pelos times de futsal Independente F.C e A.A. Metisa, ambos de Santa Catarina, o universitário joga no futsal do Timbó, também do estado natal.

Distante do sonho de jogar em grandes clubes, em parte “pelo preconceito do meio” e pela faculdade de engenharia ambiental que toma boa parte do tempo, ele virou uma das estrelas do Sereyos F.C, de Florianópolis.

“Quando você se assume sempre tem zoação, brincadeiras que te desmotivame te afastam do time. Tive dificuldades de adaptação e isso pesou bastante”, conta Krieser.

“Nosso sonho é que não precise haver essa divisão de heterossexuais ou homossexuais no futebol e que não tenhamos mais medo nem sejamos escanteados por ser quem somos”, diz Eddie Prim, 29, co-fundador do Sereyos.

Representantes do Gay Games Paris-2018 –espécie de Olimpíada da comunidade LGBT– estiveram no campeonato para iniciar a formatação de uma equipe de atletas amadores. Eles farão parte da delegação brasileira que disputará, entre outras modalidades, torneios de futebol, atletismo, tênis e natação.

Da mesma forma que o Sereyos, alguns grupos inscritos na Champions Ligay, como o Magia F.C. (RS), foram formados neste ano, após repercussão do anúncio do campeonato, criado pela Unicorns (SP).

“Foi surpreendente ver a quantidade de gays que gostam de futebol e se dispuseram a vir jogar. Mais do que uma competição, percebemos que é uma festa de união”, disse Filipe Marquezin, 31.

Em campo, porém, a união dos colegas se desfez assim que a “drag queen” convidada como “hostess” deu a largada para os jogos. Entre gritos, chutes e empurrões, as partidas se desenrolavam e a plateia delirava a cada gol.

Grupo mais ruidoso e considerado pelos colegas o mais “pintoso” do torneio, o Bharbixas (MG) escalou cores, purpurina e lances precisos para levar a taça para casa.

Mas não houve vencedores. Todos levaram medalhas para casa porque, afinal, jogam no mesmo time e pela mesma causa.

‘PODE SER GAY, O PROBLEMA É APARENTAR’

Ex-jogador do Botafogo, onde foi goleiro da equipe de juniores entre os anos de 2001 e 2002 e chegou a subir para o time profissional, o mineiro Douglas Braga, 35, teve seu destino traçado pelo preconceito.

Homossexual, viu-se dividido entre o sonho de jogar bola e o da própria aceitação como pessoa.

Optou por escolher uma vida “sem mentiras” e, após um casamento de sete anos com um homem, há três meses voltou ao esporte como zagueiro da equipe BeesCats Soccer Boys, do Rio de Janeiro.

Das poucas lembranças que guarda vestido com a camisa azul do time está uma foto de quando sentou no banco de reservas da equipe principal na partida com o Atlético-PR, no Maracanã, no Campeonato Brasileiro de 2001.

“Não era assumido nessa época, então foi muito difícil lidar com minha sexualidade e ter de me esconder dos outros. No futebol você é meio obrigado a fazer as mesmas coisas que todo mundo faz.”

“Quando se ganha um campeonato, a comemoração tem de ser com as meninas, em hotéis. Nessa época, tive poucos amigos, vivia um personagem e não tinha a noção de que isso pesava tanto. Percebi que não estava mais feliz.”

Pouco a pouco, Braga foi deixando a paixão pelo esporte de lado quando percebeu que não daria conta da vida dupla nem da pressão de trabalhar em um ambiente que não aceitasse sua condição.

Segundo ele, no futebol “você pode ser gay, mas não pode aparentar. O preconceito diminuiu, mas ele ainda está bem vivo. O futebol é um esporte machista e as coisas melhoram a passos muito, muito lentos”, afirma Braga.

 

 

Folha de São Paulo

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Comentários:

  1. CURITIBA JÁ disse:

    AGORA NÃO FALTA MAIS NADA, FUTEBOL PARA BAITOLAS. REALMENTE E O FIM DOS TEMPOS