Da superioridade à humildade

Desde que me entendo por gente que o torcedor americano sempre se achou superior ao ABCista, por uma parte, até com Justiça.

O América foi Tetracampeão de 79 a 82, com um elenco memorável. Baltazar, Didi Duarte, Severinho, Curió, Wassil entre tantos outros craques.

Nessa época, o América tinha um patrimônio invejável. Além disso, o clube era literalmente uma fábrica de craques, formava grandes jogadores. Tinha a maior peneira de talentos aos sábados e domingos, além da escolinha.

O América tinha uma maravilha: o seu vulcão social que era a sede na Rodrigues Alves. Quantas festas do meu Jardim fui lá, festas de 15 anos, aniversários, casamentos. Era chique ir à festa na sede do América. Muitas lembranças boas!

Quantos “Forró Classe A”, quantos shows … Meu Deus, quanta inveja eu tinha de ver os amigos americanos me chamarem para festas na sede social.

Como empresário de shows ainda cheguei fazer dois eventos de grande sucesso na sede da Rodrigues Alves. Fazer festa no América era o esplendor.  Jussier Santos era o timoneiro e aí é que a raiva batia forte. Jussier, dono de ironia fina, elegante. Eles viviam por cima…

Todo mundo queria ser sócio. Era o máximo ser sócio do América. Havia  fila para integrar o quadro de sócios do América, era o “Supra Sumo” da sociedade jovem potiguar.

Estava também a Pousada do Atleta. Sempre que pegava um ônibus para os lados de lá – ou passava com meu pai ou carona – lá estava a Pousada do Atleta. Imponente.  Que maravilha!

Clube ter um Centro de Treinamento e sede no coração da cidade era um luxo, era um poder grande o do América.

Depois veio a “Escalada Nacional”, como eles falavam. Acesso à Serie A com

grandes jogadores formados em casa, o América era moda.

Ser Americano era um orgulho extremo, ao ponto de pisarem e debocharem por nada de nós ABCistas.  Deboche grande. Massacre diário, sem trégua.

Eu olhava e dizia: “um dia nos vamos inverter esse papel”.

Até num evento particular, o Carnatal, todas as bandas  (a pedido da empresa organizadora) cantavam “Vermelhou” para todo o Brasil.

Exposição imensa da marca do clube para todo Brasil e motivo de chacota dos companheiros de bloco.

O América era o “Cara”, era o “Clube”, era a “Potência”. Quando eles se achavam invencíveis, quando achavam que no RN só existia “Ele”, começou o baque. A ladeira abaixo.

As gestões começaram a não ser vitoriosas e renúncias de presidentes viraram assunto freqüente. O futebol começou a não ganhar constantemente. O patrimônio já estava diminuindo…

E começou a desmoronar tudo. Depois começou a ser negociada a sede em fatias.  Os títulos já não vinham com freqüência, começaram a ser apenas os lampejos de felicidades.

A Pousada do Atleta já tinha virado Hiper, a sede da Rodrigues Alves nem de longe tinha o charme e o apogeu de tempos atrás e a permuta de uma outra parte era a salvação da lavoura.

Quando tudo ia mal, muito mal, o América com uma junção de sorte e competência (dentro e fora de campo) ressurgiu e pulou simplesmente em dois anos da Série C para a Serie A. O suspiro da UTI. A melhora da morte.

Lembrem-se que o ABC até “Sem Série” já foi. O futebol não perdoa erros demasiados  nem a soberba. O que está no fundo do poço hoje poderá estar na crista da onda daqui a um ou dois anos.

Aos ABCistas, uma lembrança: canja e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

O América pode estar há nove anos sem título, o America pode estar na Série C, o América pode não ter mais o mesmo patrimônio, o America pode não ter mais jogadores de nome.

Mas, ABC x América não tem favorito. Hoje temos ABC x America.A festa do futebol do RN, da nossa cidade.

Vamos todos em PAZ.

 

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Comentários:

  1. Michelle Paulista disse:

    Bruno, parabéns pelo blog. Tomei conhecimento dele por meio de uma entrevista sua à 98 fm. Também sou abcdista, desde criança. Realmente, fomos muito humilhados por esses soberbos americanos. Mas minha observação é quanto à expressão "abcista". O correto é mesmo "abcdista". Explico: neste caso, o "d" é apenas uma consoante de ligação/sonorização, responsável pela eufonia (tornar a pronúncia agradável) É o ocorre também em palavras como :paulada, cafeteira, nas quais o "l" e o "t" não fazem parte dos radicais, apenas conferem harminia fonológica.

  2. Kátia Andrade disse:

    Acho que você tem toda razão nas suas colocações, sempre fui muito humilhada por diversos americanos, mas acredito muito no nosso ABC!!!!!!!, espero que dê tudo certo novamente e que possamos comemorar mais uma vitória.
    Em tempo: gostaria de te agradeçer por tudo o que você fez e continua fazendo pelo nosso time MAIS QUERIDO DO MUNDO.
    Grande abraço e a partir de hoje serei sua seguidora.