Mestres em Educação da UFRN discordam das escolas de Natal ao utilizar ranking do Enem já encerrado pelo MEC

Muitas escolas de Natal utilizam o marketing de um ranking do resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2017, já encerrado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação (MEC). Em setembro de 2017, o INEP, responsável por todo o processo seletivo do ENEM, anunciou oficialmente que não liberaria mais as médias por escola, tendo em vista que os números apresentados estavam sendo utilizados, principalmente pelas redes particulares de ensino, como propaganda, divergindo completamente da proposta do Instituto. No entanto, escolas particulares de todo o Brasil permanecem tabulando dados e apresentando resultados duvidosos, em matérias reveladoras da Folha de São Paulo e Estadão, mês passado, com os resultados parciais das provas de novembro último.

Segundo a Folha de São Paulo e o Estadão, nas reportagens reveladas, várias escolas do país apresentam números de alunos inferiores ao real número de estudantes presentes e frequentes em sala de aula, incompatível com o número de inscritos para o ENEM, divergência que reflete diretamente no percentual de aproveitamento e médias que são decisivas para o ranking já encerrado pelo MEC em setembro de 2017.

Nos estudos realizados pelos jornais, as duas maiores médias do país foram do Colégio de Aplicação Farias Brito, em Fortaleza (CE) e o Objetivo Integrado, em São Paulo. No entanto, já se sabe que o Aplicação é uma unidade feita apenas por alunos selecionados desde o 6º ano e que vêm apresentando as melhores notas. Será que uma grande escola, em Fortaleza, só teve 34 alunos fazendo Enem? Será que uma grande escola de São Paulo só teve 44 anos alunos no Enem? Ou estão criando CNPJs distintos para lançar códigos diferentes na própria escola para selecionar alunos para aquele nome fantasia de interesse e usar como ferramenta de marketing?

Para o professor e mestre em educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rogério Alves dos Santos, é importante considerar alguns fatores na hora de escolher a escola dos seus filhos e filhas, pois nem sempre as escolas que apresentam as melhores notas são, necessariamente, as “melhores escolas”. E acrescenta, “Ter como parâmetro apenas o ranking da escola no Enem não é suficiente para a escolha da escola mais adequada, isso mesmo pais, ao invés de procurar a melhor escola, orientados por indicadores insuficientes em si mesmos, busquem a escola mais adequada para atender às necessidades dos seus filhos”.

Para psicóloga e também mestre em educação da UFRN, Gisele Oliveira, os pais devem avaliar bem mais que a formação acadêmica oferecida aos alunos, tal como a preparação para o Enem, o ensino de línguas, entre outros fatores decisivos para formação do cidadão.

“O que não se pode perder de vista é a formação humana, pois é nesta escola que o filho ficará boa parte do tempo e é lá que a criança/jovem irá adquirir valores, desenvolver sua personalidade e aprender a se relacionar com os outros. Conhecer a escola e sua filosofia de ensino deve ser também um fator a ser considerado pelos pais na hora da escolha, não o método de escolas usarem como marketing um ranking já encerrado pelo MEC do Enem”, explica Gisele.

O questionamento quanto aos dados apresentados por uma empresa de consultoria educacional, a Evolucional, parte da informação de que em 2016, ano que se referem às tabulações, havia, por exemplo, 223 alunos matriculados no ensino médio e somente 44 aparecem como tendo feito o ENEM. Será que todos os demais alunos deixaram alguma das provas objetivas em branco ou faltaram em algum dia de prova? Eram apenas “treineiros” ou a escola optou por inscrever o menor número de alunos, selecionando apenas as melhores promessas de notas para subir a média da escola?

“Essa manobra perspicaz promovida por algumas escolas particulares resulta em uma perigosa segregação realizada ao se categorizar e separar os alunos que apresentaram um melhor rendimento, de um lado, e os que tiveram um rendimento escolar insatisfatório ou abaixo das expectativas dos padrões estabelecidos do outro, em muitos casos, considerando algumas avalições de forma isolada, não levando em consideração as diferentes possibilidades de expressão, competências e potencialidades dos estudantes, esclarece Rogério.

Essa situação vem ocorrendo também na capital potiguar e o ranking apresentado tem gerado os mesmos questionamentos. Com escolas apresentando um número de alunos inferior aos reais presentes em sala de aula. Afinal, será que a nota do ENEM deve ser o único ponto abordado pelos pais para escolher a melhor educação para os seus filhos?

 

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