MUITO SÉRIO: Anônimos expostos em memes contam suas histórias e reivindicam direitos

Jenny estuda entrar na Justiça para retirar de circulação memes que zombam da aparência do filho, que tem disfunções congênitas – Reprodução

Compartilhados freneticamente nas redes sociais, os memes — texto, foto ou vídeo transformado em piada na internet — podem divertir as pessoas que os produzem ou republicam, mas, em muitos casos, deixam cicatrizes naqueles cujas imagens são reproduzidas indevidamente. Para a americana Jenny Smith, de 37 anos, deparar-se com um meme que usava a foto de seu filho de 3 anos, portador de disfunções congênitas como a síndrome de Arnold-Chiari e epilepsia, foi um choque em meio a uma luta que vem alternando esperança e dificuldades. O tempo de vida para o pequeno Grayson era, inicialmente, de poucas semanas, mas, hoje, em meio a caros tratamentos médicos e cirurgias, ele está em vias de completar 4 anos.

No início de novembro, Jenny ficou sabendo que a foto de seu filho foi usada em memes que zombavam da aparência da criança. A partir daí, ela vem empreendendo uma luta rotineira para retirá-los da internet. Isto envolve escrever para pessoas que compartilham a piada de mau gosto e pedir que as grandes empresas da internet removam o conteúdo — sem sucesso, até agora.

— Empresas como o Facebook ainda não me responderam. Já estou me preparando para prosseguir com uma ação na Justiça. Tenho que defender meu filho, pois o que está sendo feito não é certo e nem juridicamente legal. Tudo se torna mais sensível e doloroso uma vez que a situação dele é terminal — disse Jenny ao GLOBO, por telefone.

As imagens que se tornaram memes tiveram origem em páginas criadas por Jenny para arrecadar fundos para Grayson e conscientizar sobre sua condição. Após uma doadora avisá-la sobre o conteúdo circulando com a sua foto, Jenny resolveu também parodiar os memes, usando frases positivas sobre o filho.

‘NÃO DESEJARIA AO PIOR INIMIGO’

Após ser chamada de ‘mulher mais feia do mundo’, Lizzie se tornou palestrante e virou tema de documentário – Divulgação

O uso de sua foto em um meme também foi motivo para que Lizzie Velasquez, de 27 anos, resolvesse se manifestar. No mês passado, ela publicou um post no Facebook relatando o momento em que viu, enquanto navegava pela web, uma foto com uma frase que zombava da aparência dela. Além de ter uma doença rara que a impede de acumular gordura no corpo, a americana foi diagnosticada com a síndrome de Marfan — e chamada, na internet, de “Mulher mais feia do mundo”, em 2006. Desde então, ela se tornou palestrante motivacional e vem defendendo valores como autoconhecimento e superação. Sua vida foi o tema do documentário “A Brave Heart: The Lizzie Velasquez Story” (“Um Coração Valente: A História de Lizzie Velasquez”), lançado nos Estados Unidos, em 2015.

“Eu vi um monte de memes como este no Facebook recentemente (…) Pessoas inocentes que estão sendo colocadas nestes memes estão provavelmente até tarde olhando o Facebook e sentindo algo que eu não desejaria ao meu pior inimigo”, apontou Lizzie. E completou, com um pedido: “Peço que tenha isto em mente na próxima vez que você vir um meme viral com algum estranho aleatório. Neste momento, você pode achar isto hilário, mas o ser humano na foto está sentindo exatamente o oposto. Espalhe amor, e não palavras dolorosas na sua tela”.

Uma “estranha aleatória” fez parte de um dos memes que mais bombou no Brasil em 2016: a de uma senhora dormindo em um shopping no Recife, que deu margem para dezenas de montagens fazendo graça com sua posição. Em meio a risadas, alguns internautas optaram por alertar sobre os direitos de privacidade e de imagem dos anônimos que têm fotos reproduzidas. Em 2013, uma criança foi alvo de um meme que usava a foto dela para fazer piada sobre suas sobrancelhas. Na época, foram abertas comunidades virtuais para apoiá-la.

O advogado Leandro Bissoli, especializado em Direito Digital, alerta que a simples postagem de uma foto pessoal nas redes sociais não torna a imagem pública — para tal, esta imagem precisaria estar autorizada de forma clara.

— Este tipo de situação fere os direitos de imagem, que geram um dano moral. O desafio não está em conseguir uma indenização, mas, sim, em tirar de circulação esse tipo de conteúdo, que viraliza muito rápido. E não é o Judiciário que vai resolver isso — pondera Bissoli, destacando que há decisões jurídicas que apontam para uma responsabilidade compartilhada entre empresas, produtores e até aqueles que simplesmente “curtem” um conteúdo indevido.

O caso de Nissim Ourfali é um dos mais conhecidos do Brasil — e também um dos primeiros a expor os danos à privacidade com os memes. O vídeo produzido para a comemoração do seu Bar Mitzvah foi amplamente compartilhado em 2012. A família dele entrou na Justiça, que, ano passado, determinou ao Google que removesse os vídeos com as imagens do menino.

CURANDO O CYBERBULLYING

Após ter imagem viralizada, americana criou campanha contra o cyberbullying – Reprodução / Cure the Hate

Para Ashley VanPevenage, de 21 anos, o caminho a ser seguido após ver sua foto cheia de acnes viralizar na internet foi criar a campanha “Cure the hate” (“Cure o ódio”), pela conscientização contra o cyberbullying. “Meu conselho para pessoas que talvez tenham que lidar com isso algum dia é que, não importa o que as pessoas digam ou pensem sobre você, todo mundo é bonito por dentro e por fora”, aconselha ela no site da campanha.

Para Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santos(UFES), na contramão de memes que ofendem, a internet tem um potencial criativo que deve ser ampliado.

— Quanto mais tivermos uma sociedade que proteja as suas minorias, a gente vai ter memes muito mais criativos, irônicos e até políticos, do que aqueles feitos simplesmente para ridicularizar o outro. Há memes que criam linguagens. A internet é inventora de expressões, como “vergonha alheia” e tantas outras hashtags.

O Facebook informou que vai investigar o incidente com Grayson e reforçou a existência dos “Padrões de Comunidade para manter a segurança dos usuários e incentivar um comportamento respeitoso”.

O Globo

 

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